quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Autor Global Visita Seu Berço, e Reecontra Amigos

Dez anos após a última visita voltei a Carpina, Pernambuco, a cidade onde nasci há 65 anos e de cujas lendas e mitos tirei a essência de muitas das minhas novelas. “A Indomada”, por exemplo, se passava inteirinha lá, ainda que sua cidade se chamasse “Greenville”; e a maioria dos seus personagens, embora reciclados, eram baseados em figuras carpinenses recolhidas da minha primeira infância. Foi lá que, aos sete anos, vi com meus próprios olhos a “Mulher de Branco”, assombração que desde “Tieta” tem sempre aparecido nas minhas histórias, mudando apenas de nome: o Cadeirudo, o Perfumado, o Sufocador.

Voltei porque fui convidado por um dos seus cidadãos mais ilustres: José de Melo, dono do Engenho Pindoba e da Fazenda Campo Grande entre outras posses, para receber as chaves da cidade e, quem sabe, recolher material destinado a trabalhos futuros. Fiquei apenas um dia e meio. Mas nesse pequeno espaço de tempo conheci figuras reais que dariam personagens incríveis. E quando saí de lá aquela minha idéia recorrente de escrever uma continuação de “A Indomada” tinha se fortalecido.

Não que Carpina seja a mesma de quando a deixei – fisicamente a cidade cresceu muito. Mas, do ponto de vista cultural, continua a mesma, com seus moradores a se dividir mutuamente em “cabras safados” ou “sujeitos machos” - assim mesmo, sem meios termos na vida ou na política; até mesmo as mulheres, ou são honestas ou “raparigas”, que é a palavra que lá se usa para chamar alguém de “puta”.

No dia em que cheguei, morreu uma de suas figuras mais ilustres, o advogado e ex-deputado federal Sérgio Murilo, a quem eu conheci em priscas eras. O enterro foi razão para manifestações explícitas de pesar e para a reafirmação de rivalidades pessoais e políticas. Todas as figuras que contam na vida de Carpina lá compareceram – amigos e inimigos. José de Melo, que segurou uma das alças do caixão, me disse depois que esta foi uma das maiores honrarias de toda a sua vida.

Comi de tudo: desde as iguarias que me remeteram à primeira infância, como o bolo a que chamam de “grude”, e a inevitável buchada de bode que é o terror dos políticos do Sul do país quando visitam Pernambuco. AGUINALDO SILVA

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